segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

REDE E CÍRCULO DE MULHERES: EMPODERAMENTO E MAGIA

DANI BASTOS

O que é uma rede?
Por “rede” entende-se um conjunto de entidades (que pode ser de objetos, materiais, pessoas) interconectados uns aos outros. De forma ampla e genérica, a rede serve para compartilhar recursos e/ou informações materiais ou imateriais entre cada uma destas entidades, de acordo com regras previamente definidas. Existem muitos tipos de rede – redes de transporte, redes sociais, redes elétricas, redes de pessoas – são alguns modelos.

Nas redes físicas, por exemplo, a estrutura é geralmente definida como um sistema de nós e elos que se interligam. Fazendo um paralelo com as redes de pessoas, cada pessoa é um “nó” ou um “elo”. A essência da rede de pessoas é o relacionamento estabelecido entre elas. É uma forma de organização onde se pode partilhar valores e objetivos em comum.

A partir da compreensão aqui colocada sobre a função social das redes, é possível aprofundar a reflexão sobre o motivo pelo qual em muitos grupos sociais onde há uma predominância da influência do patriarcado, ensina-se desde muito cedo que as meninas – futuras mulheres – julguem e denunciem umas às outras, que elas se digladiem entre si, que se vejam como rivais.

Esse “modus operandi” da cultura do patriarcado é muito perverso porque a vigilância e o controle passam a não mais acontecer apenas de fora para dentro, ou seja, não são apenas os pais, irmãos, maridos, professores, padres, médicos e outros homens da sociedade a estabelecer e definir qual é o comportamento  “correto” esperado de uma mulher mas também as outras mulheres passam a corroborar para reprimir a verdadeira e instintiva natureza feminina e terminam por reproduzir a opressão. Dessa maneira, é muito mais difícil que as redes femininas sejam formadas.

O sistema dominante sempre quis manter a “ordem”. A “ordem” é tudo que é conhecido, delimitado, controlável, conveniente, domesticável. Alguns agentes sociais têm o potencial de causar a “desordem”, ou seja, se vierem a conhecer o seu verdadeiro poder ou força podem vir a romper a “ordem”. Daí a necessidade de controlá-los. As mulheres, com certeza, tem esse potencial, por isso o sistema patriarcal tem a preocupação e a necessidade de controlar nossos corpos, nossos pensamentos, nossos comportamentos, nossas vontades, desejos, até nossos sonhos.

Mas sempre existiram mulheres que preferem morrer a aceitar rédeas. São mulheres que não se deixam dominar em hipótese nenhuma. São as que acreditam em sua intuição. São as que seguem seu próprio ritmo. São as que respeitam seus ciclos. São as que dão ouvidos à sua voz interior. São as que deixam o coração falar mais alto. São as que resistem, as que persistem, as que ousam, as que lutam, as que agem. São as bruxas, as rebeldes, as loucas, as insubordinadas, as atrevidas, as perigosas.

Destaca-se aqui a importância das Redes de Mulheres. A rede de mulheres numa dimensão mais política, tem como objetivo principal o estabelecimento de relações sociais e/ou profissionais entre as participantes. Serve para compartilhamento e troca de experiências, informações, saberes, conhecimentos, ideias, projetos e direitos. Um dos intuitos é fazer com que as integrantes sintam-se apoiadas, respeitadas, representadas e principalmente pertencentes a um coletivo onde podem falar, se expressar, participar de fato sem serem interrompidas, julgadas, podadas ou ridicularizadas.

Já numa dimensão mais espiritual e sagrada, a rede de mulheres funciona como um espaço de apoio emocional, de reencontro com as energias femininas, de religação com os elementos da natureza – terra, água, fogo e ar – de transmissão de saberes através de histórias ancestrais, de conexões intergeracionais e atemporais, espaço de compreensão, de aceitação e de acolhimento, onde a mulher descobre que não é a única a sofrer inseguranças, medos, bloqueios, dúvidas ou solidão.

Algumas chamam de Círculo de Mulheres. Porque o círculo é considerado uma forma ancestral, mágica e simbólica – a roda sagrada – de intensa troca energética, que coloca todas em posição de igualdade, sem hierarquias, sem assimetrias, contrariando a ordem social dominante onde somos constantemente diminuídas, invisibilizadas, inferiorizadas e subjugadas. É [para algumas] a volta e celebração do útero como órgão mágico, criador em potencial, não apenas da vida biológica, mas da vida criativa e visceral em sentido amplo – plantas, projetos, pessoas, empreendimentos. É o despertar do potencial para o desenvolvimento, para o crescimento, para o fazer florescer, para o frutificar.

É um dos primeiros instrumentos de cura e um dos primeiros passos para a reconstrução da autoestima feminina. A rede ou círculo de mulheres é de extrema  importância para o reestabelecimento dos vínculos, dos laços, para o reencontro com os pares e com a fonte geradora da inspiração e da esperança para que mais e mais mulheres sejam fortalecidas, incentivadas e empoderadas. Afinal, juntas somos bem mais fortes.



Mulheres já são 20% dos operadores do metrô de Salvador

São números bastante animadores, visto que, em 1986, a primeira turma de operadoras de metrô do país possuía apenas três mulheres

As unhas bem feitas, os cabelos cuidadosamente arrumados e o fardamento impecável  não revelam só o cuidado feminino com a aparência. Mulheres como Aline, Caliana, Camila, Caroline, Elizabeth e Eyde demonstram o zelo com uma profissão em que as mulheres lutam por uma vaga numa estação predominantemente masculina: a de operador de trem.
Hoje, 17 dos 85 operadores de trem do metrô de Salvador são mulheres, o que representa 20% dos profissionais. O percentual é  superior ao das mulheres no metrô de São Paulo, maior do país, que conta com 1.047 operadores de trem - 189 do sexo feminino.
Em relação a Brasília, o percentual de Salvador é duas vezes maior. Na capital federal, o metrô tem 18 operadoras de um total de 194. São números bastante animadores, visto que, em 1986, a primeira turma de operadoras de metrô do país, formada em São Paulo, possuía apenas três mulheres.
Para o gestor de Operação da CCR Metrô Bahia, Hamilton Trindade, a competência é o critério central para a contratação dos profissionais. “As oportunidades são oferecidas igualmente para mulheres e homens. Então, para se tornar operadora de trem, basta que se mostre apta durante o processo seletivo e o período de treinamento”, diz Trindade.
Para ele, as mulheres ainda estão descobrindo gradualmente as oportunidades de emprego oferecidas pela CCR Metrô Bahia. 
“Antes de iniciar a operação do metrô de Salvador, já conhecíamos experiências bem-sucedidas de outros locais que têm mulheres conduzindo trens”, completou . 
O time baiano
A seriedade com que as meninas comandam os gigantes de aço, que pesam cerca de 175 toneladas e medem algo em torno de 84 metros, se mostra no olhar concentrado delas diante dos trilhos.
Como um velejador experiente, elas não desgrudam os olhos do horizonte e dividem a atenção entre o caminho que segue a composição, as imagens das 22 câmeras de segurança que monitoram o interior dos vagões e os comandos estampados no painel de controle. É preciso ter olhos atentos para dar conta de tudo.
Para Lorena Anjos, 27 anos, que há seis meses comanda o metrô em Salvador, o ofício dos operadores é algo maior do que simplesmente levar e trazer pessoas. “A gente está transportando sonhos. Cada pessoa daquela está indo para o trabalho, para uma entrevista de emprego, está indo encontrar o filho. Então, a responsabilidade é muito grande. E todo cuidado é pouco. A atenção precisa ser redobrada”, diz Lorena.
Elas contam que sentem orgulho pela responsabilidade de transportar 74 mil passageiros que transitam, diariamente, nas linhas 1 e 2 do modal (Foto: Evandro Veiga/ CORREIO)
Diariamente, 74 mil sonhos são transportados pelas linhas 1 e 2 do metrô – um número que deve crescer ainda mais com a expansão das ferrovias. Cada uma dessas profissionais realiza, em média, dez viagens por dia em um turno de trabalho de oito horas. Mas a rotina puxada e a carga de responsabilidade da função estão longe de ser um obstáculo.
Adrenalina
Formada na primeira turma de operadores, Tamires Nascimento, 29, que, dentre outras proezas, já transportou a ex-presidente da República Dilma Rousseff, tem no sorriso do público a sua principal motivação para o trabalho.
“Sinto uma emoção muito grande quando o trem está saindo, a porta fechando. É algo que não consigo explicar. E ver as pessoas sorrindo porque estão sendo bem atendidas, chegando bem nos seus destinos é muito gratificante”.
Nos dias de jogos na Arena Fonte Nova, quando a estação do Campo da Pólvora é tomada pelas cores da dupla Ba-Vi, o trabalho nas locomotivas é ainda mais intenso. 
“Para a gente, o dia mais legal é quando tem jogo. Ver a torcida vibrando dentro do trem passa uma adrenalina muito boa. E aqui na Bahia, a torcida é muito forte”, afirma a carioca Catherine Freire, 27, que se mudou para Salvador para operar trens.
A hoje supervisora de tráfego, Gisele Ventura, 26, relembra com saudades a Copa do Mundo. “As plataformas estavam muito cheias e quando eu conduzia o metrô sentia bastante a responsabilidade que a gente tem nas mãos”, vibra a primeira mulher a assumir a supervisão de tráfego no metrô de Salvador. 
Sonho
A primeira viagem a gente nunca esquece. Poucos veem tanta verdade nessa frase como essas 17 metroviárias. Até ser aprovada no processo seletivo para trabalhar aqui, Tamires Nascimento jamais tinha entrado em um metrô. “As pessoas diziam: 'operadora de trem? Mas você não dirige nem carro”, relembra.

(Foto: Evandro Veiga/ CORREIO)
Foi amor à primeira vista. Ou ao primeiro ronco. “A primeira vez que eu entrei aqui e ouvi o barulho do motor ligando pensei: isso aqui é o que eu sempre quis ser”, revelou.
A emoção de ver o filho Arthur, 4, dizer com orgulho que a mãe opera um trem, supera conduzir qualquer chefe de Estado. “Ele diz: ‘Meu pai, você dirige um carro, mas minha mãe opera um trem’”.
Do preconceito ao reconhecimento
O operador Jorge Zandomingo, 65 anos, profissional mais experiente entre os 85 que atuam no sistema, relembra que, no início da carreira - há cerca de 25 anos - as mulheres não eram bem-vindas nas cabines de comando. “Sou de um tempo em que as mulheres nem podiam encostar no trem. E hoje elas estão aí operando”, comemora.
Zandomingo iniciou a sua jornada ferroviária na cidade do Rio de Janeiro, onde trabalhou por 22 anos, e está há quase três no metrô de Salvador. Ele ressalta que, apesar do sistema que realiza a condução do trem, a atenção do operador é essencial para a segurança dos passageiros. “O operador é também um monitor que está sempre visualizando os componentes do trem para ver se há algum defeito”, explica.
Para Gisele Ventura, o preconceito em relação às metroviárias vem gradativamente sendo substituído por um reconhecimento. “É uma situação engraçada. Porque operar trens é uma profissão historicamente masculina e hoje a CCR está dando essa oportunidade para mulheres também conquistarem esse espaço. E, por incrível que pareça, o que a gente sente dos usuários é admiração”, diz, com sorriso no rosto.
Neta de índia, Lorena Anjos sente uma felicidade em dose dupla por poder atuar no transporte sobre trilhos. “Além de mulher, sou representante de uma classe racial e nunca imaginei uma índia conduzindo um trem. É a realização de um sonho e eu me sinto orgulhosa de fazer parte disso”, diz a operadora.
A estudante Tamires Nascimento, 15 anos, acredita que as 17 mulheres do metrô de Salvador são fontes de inspiração para outras seguirem em busca de seus sonhos. “É uma grande conquista.”

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Quem vestiu a globeleza?

Engana-se os que acham que foi a globo que vestiu a Globeleza.
Quem vestiu a Globeleza foram as feministas.
Foi o grito das mulheres contra a objetificação do corpo feminino e contra a hipersexualização do corpo negro que calou o assanhamento dos machos brancos.
A Globeleza nunca representou o carnaval, ela representava apenas o samba carioca bordelizado que nasceu nos tempos do Sargentelli.
A mulata Globeleza se saracoteando pelada, era o símbolo da exploração do corpo negro, da carne barata servida nos baquetes bacantes da casa grande desde a hora primeva.
Nua, a mulata Globeleza evidenciava apenas a beleza negra que importa aos mercadores: peito, bunda e tapa sexo.
A Globeleza, vestida, é uma vitória das pretas cansadas de serem virtualmente mucamizadas.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Entrevista - Débora Diniz

“A mulher que aborta está na nossa família”


“A mulher que aborta está dentro da nossa família e na nossa vizinhança. Ela não é uma fantasia criada pelo debate moral”, diz a antropóloga Débora Diniz, uma das autoras da Pesquisa Nacional de Aborto – 2016. Por Tory Oliveira #CartaCapital

O machismo e o patriarcado são perversos! Nosso corpo, nossas regras!
Homem tende a abrir mão da camisinha se a mulher é bonita


Homens são mais propensos a abrir da mão da camisinha quando a mulher é bonita, segundo uma pesquisa científica. Já se a parceira for “mais ou menos”, eles tendem a achar que a chance de contrair uma doença sexualmente transmissível (DST) é maior.
Pesquisadores das universidades de Southampton e de Bristol, no Reino Unido, convidaram 51 homens heterossexuais para avaliar fotos de 20 mulheres diferentes e dizer com quais delas topariam ir para a cama sem proteção. Os resultados foram publicados no British Medical Journal e divulgados no The Washington Post.
Os participantes tinham idades entre 19 e 61 anos. Eles tiveram que dar notas para cada mulher fotografada levando em conta fatores como atratividade, além de dizer a probabilidade de cada uma ter uma DST.
Segundo os homens, quanto mais atraente era a mulher, menores as chances de ter uma doença. Embora o estudo seja pequeno, ele reforça resultados semelhantes obtidos em pesquisas anteriores. De modo geral, as pessoas tendem a associar boa aparência a boa saúde. Mas a verdade é que as DSTs são democráticas: elas afetam feios, bonitos, pobres e ricos. Por isso, camisinha sempre.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016


"As mulheres ainda são as mais vulneráveis à sífilis"

Carla Bittencourt

A sífilis já deveria estar eliminada no Brasil, mas, em vez disso, o país enfrenta uma epidemia provocada pela bactéria Treponema pallidum. Além de ser transmitida sexualmente, a sífilis também pode ser passada da mãe para o bebê durante a gravidez, e são esses dois casos – gestantes e recém-nascidos – os que mais têm aumentado na Bahia. Em Salvador, o número de bebês nascidos com a doença dobrou nos últimos dois anos e, entre 2010 e 2013, vinte vezes mais crianças morreram em decorrência da sífilis congênita. Para Ana Gabriela Travassos, presidente da regional baiana da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, há múltiplas causas que explicam esse quadro e que passam pelo aumento do diagnóstico, pela falta de penicilina no mercado e pelo descaso quanto ao uso de preservativo. A médica, que defende em dezembro sua tese de doutorado sobre o tema, encontrou, em Salvador, uma população com HIV com uma prevalência de 31% de sífilis, estatística alta mesmo se comparada ao resto do país. À Muito, Travassos lembra que o diagnóstico é simples, feito a partir de um exame gratuito disponível nos postos de saúde. Como a sífilis costuma ser assintomática, a médica indica que todos os que tem ou tiveram relações sexuais desprotegidas façam o teste. Nesta entrevista, ela explica, entre outras coisas, por que mulheres ainda são as mais vulneráveis. 
O Ministério da Saúde anunciou que há uma epidemia de sífilis no Brasil. Nos últimos cinco anos, foram 230 mil novos casos, um aumento de 32% somente entre 2014 e 2015.  Por que isso aconteceu?
Há alguns fatores. Primeiro, ampliou-se o diagnóstico. Hoje, você tem o teste rápido para sífilis na unidade básica de saúde. Basta uma picada no dedo, uma gotinha de sangue e o resultado sai em 30 minutos. Esse é um ponto positivo, porque é melhor saber e tratar. Aí vem o segundo ponto, um dos mais negativos, que foi o desabastecimento, no país, da matéria-prima para a penicilina benzatina, droga que se usa para tratar a sífilis. O Ministério da Saúde importou essa penicilina, já está disponível, mas por um bom tempo não esteve, e isso fez com que mais pessoas se infectassem. O terceiro ponto que eu destacaria é a prevenção. Nós tivemos, nos últimos dez anos, uma redução do uso do preservativo, o que aumentou, e muito, a transmissão.
Podemos afirmar que as pessoas estão relativizando o uso da camisinha?
Sim. É uma questão de autocuidado, mas, hoje, a geração é da velocidade, dos amores fluidos. É maior o número de parceiros e menor o cuidado, apesar de o acesso à informação ser muito grande. A internet tem bastante material disponível, tem as propagandas, as campanhas. Mas a linguagem ainda não é apropriada, não chegou para o jovem. 
Talvez faltem campanhas mais agressivas, já que os jovens não viram, como as gerações anteriores, pessoas morrendo por causa da Aids, por exemplo.
A gente associou muito o uso da camisinha ao HIV. Mas, hoje, o que tem crescido são as infecções bacterianas – sífilis, gonorreia, clamídia. E isso é no mundo, não só no Brasil, e principalmente na população mais jovem. Então, quando a gente fala do uso do preservativo, é focando no autocuidado. Ninguém quer ser moralista, pregar a cultura da abstinência, nada disso. Quando a campanha fala de doença, foca numa realidade distante, porque a maioria das pessoas não vê a doença no parceiro. Essas infecções são pouco sintomáticas. Então, se a pessoa está bem fisicamente, não se imagina que ela tem uma infecção. 
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Em Salvador, dobrou o número de recém-nascidos contaminados pela sífilis. O índice, que em 2013 era de 9,03 casos para cada mil nascidos vivos, passou em 2015 para 18,8 casos
Ana Gabriela Travassos, presidente da regional baiana da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis
Qual a situação da Bahia no contexto de epidemia da sífilis?
A Bahia também tem tido um crescimento do número de casos. Segundo a Secretaria da Saúde do Estado, este ano, 2.961 pessoas foram diagnosticadas com a doença. Mais do que o registrado em 2013, por exemplo, que teve 2.677 novos casos. Aqui, o mais grave está no aumento de casos em gestantes e em bebês.  Em Salvador, nos últimos dois anos, dobrou o número de recém-nascidos contaminados pela sífilis. O índice, que em 2013 era de 9,03 casos para cada mil nascidos vivos, passou em 2015 para 18,8 casos para cada mil nascidos vivos. Como esses casos são de notificação obrigatória, eles são mais consistentes. E há uma mortalidade grande de bebês, um aumento de 20 vezes no estado, entre 2010 e 2013. Isso é gravíssimo. 
A microcefalia é uma das consequências pouco lembradas da sífilis, e o problema na Bahia está, principalmente, concentrado em gestantes e bebês. Há uma razão específica para isso?
Além das que explicam a sífilis de uma forma geral, há outro aspecto importante a ser considerado: o pré-natal não tem sido feito de forma precoce como deveria. A mãe precisa tratar a infecção até o sexto mês de gestação. A partir de 28 semanas, a chance de ela transmitir a bactéria para o bebê aumenta e já é considerado caso de sífilis congênita se o tratamento não acontecer até um mês antes do parto. Por isso, o pré-natal precoce é ideal. 
A microcefalia decorrente da zika é a mesma provocada pela sífilis?
A fisiopatologia é semelhante, mas a causa é diferente. Uma é infecção viral e a outra, bacteriana. Microcefalia é sempre microcefalia e as consequências são graves. Mas, apesar de a estatística de sífilis na gravidez ter aumentado, não são todas as grávidas que terão bebês com microcefalia. A incidência bem menor do que em decorrência da zika.
Que cuidados devem ter os pais dos bebês que sobrevivem à sífilis congênita?
As crianças que têm sífilis e não têm lesões graves vão viver a vida normalmente. É diferente da zika, que, quando acarreta microcefalia, traz um comprometimento para o resto da vida. Existem casos de sífilis congênita nos quais o bebê tem poucos sintomas, usa a penicilina por dez ou 15 dias e vai ter a vida normal. 
A incidência de casos de sífilis, que em 2010 era maior entre homens, hoje recai sobre as mulheres. Por que a vulnerabilidade neste grupo está aumentando?
As mulheres ainda são as mais vulneráveis a DSTs de uma forma geral. Elas têm dificuldade de negociar o preservativo com o parceiro, por exemplo. Mas o acesso da mulher ao diagnóstico também é maior, por isso é mais fácil contabilizar essa população. Quando é que um homem faz exame para a sífilis? Somente quando tem sintoma, quando tem uma úlcera ou outra doença, então vai investigar essa. Mas a mulher vai fazer o pré-natal e, automaticamente, faz o teste para a sífilis.
A sífilis é uma doença silenciosa, não apresenta sintomas graves em seu estágio inicial. Como as pessoas podem saber se estão ou não infectadas?
Elas têm que fazer o exame de rotina. Assim como hoje já fazem o hemograma ou avaliam a pressão arterial, quem tem ou teve vida sexual precisa fazer o exame da sífilis. Hoje, só para você ter uma ideia, o Conselho Regional de Medicina e o Ministério da Saúde recomendam a investigação de rotina para sífilis e também para HIV e hepatites virais, sem que haja sintomatologia alguma. Também não há necessidade de esperar o pedido médico. Quem tiver uma relação sexual desprotegida pode ir ao posto de saúde e pedir para fazer o exame, gratuitamente.
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Quem tiver uma relação sexual desprotegida pode ir ao posto de saúde e pedir para fazer o exame, gratuitamente
Ana Gabriela Travassos, presidente da regional baiana da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis
Na terceira fase da doença, considerada a mais grave, a bactéria permanece no organismo sem manifestar sintomas, e isso pode causar meningite ou graves problemas cardiovasculares. Muitas pessoas chegam até esse estágio?
Sim, e isso tem acontecido com uma frequência ainda maior. É o que a gente chama de neurossífilis, porque infecta o cérebro. Os problemas que acometem o coração também têm aumentado. Isso acontece porque a doença fica latente e não é tratada. Em pacientes com HIV, a sífilis é ainda mais agressiva, pois  eles não têm uma resposta imunológica adequada ao tratamento.
Em sua tese de doutorado, a senhora pesquisou pacientes com HIV que também têm sífilis. Que dados encontrou?
Encontramos, em Salvador, uma população com HIV com uma prevalência de 31% de sífilis, que é considerada muito elevada. Outros trabalhos feitos no Brasil encontraram uma taxa de 0,5% na população em geral. E, mesmo na população mundial com HIV, num trabalho de 2015, a taxa foi de 9,5%.
Por que esse dado encontrado tão mais alto em Salvador?
O Brasil está reestudando a sífilis. No mundo, há um recrudescimento da infecção, ela está voltando como uma epidemia. Meu foco de estudo foi Salvador, e, provavelmente, essa estatística até já aumentou. A preocupação da sífilis no paciente com HIV é que ela traz quadros bem mais graves da doença e também provoca uma transmissão maior do próprio HIV. Essa é uma população que precisa de um cuidado maior, ser melhor investigada e tratada precocemente. De forma geral, a doença está mais agressiva atualmente. Há cinco relatos recentes, nos Estados Unidos, de cegueira causada pela sífilis. Cegueira irreversível, casos em que o Treponema destruiu a retina. 
Voltando ao tema do desabastecimento de penicilina, essa é uma substância relativamente barata, que não dá lucro para a indústria farmacêutica. Há quem diga que esse “sumiço” é uma estratégia da própria indústria para elevar o preço de mercado. O que a senhora acha?
Acho que não é só isso. A epidemia cresceu no mundo todo, então todo mundo quis comprar. E não foi só a falta de medicamento a causa da epidemia, mas a falta do uso de preservativo. A indústria pode ter agido propositalmente? Não excluo essa hipótese. Mas não é só isso. 
O Brasil não sintetiza, mas importa a penicilina. Já que é tão barato, como o governo pode se posicionar para que uma questão de saúde pública não seja subjugada a um viés comercial?
O governo já está tentando fazer isso. Pela última colocação que eu vi do Ministério da Saúde, já se está estudando partir para esse caminho. 
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De forma geral, a doença está mais agressiva atualmente. Há cinco relatos recentes, nos Estados Unidos, de cegueira causada pela sífilis
Ana Gabriela Travassos, presidente da regional baiana da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis
O que podemos deixar como orientação médica para a população no que diz respeito a essa atual epidemia de sífilis?
A mensagem principal é o uso do preservativo. E não adianta pensar “ah, um dia eu vou usar”. Não. É para usar sempre, cotidianamente. Depois,  façam o teste, tanto para a sífilis quanto para o HIV, porque hoje existe tratamento, e, eu repito, é sempre muito melhor saber e tratar do que não saber e adoecer gravemente, seja de sífilis, de HIV ou das hepatites virais. A pessoa vai se tratar e vai ficar bem. Em terceiro lugar, caso tenha sífilis, é só procurar o tratamento adequado e não ficar adiando. Basta tomar a penicilina benzatina e pronto. Não existe relato de resistência do Treponema à penicilina. É algo que já poderia, inclusive, estar eliminado. Cuba e Tailândia, por exemplo, já conseguiram eliminar a sífilis congênita, enquanto o Brasil regride e vive uma epidemia. Isso é assustador. Algumas pessoas pensam “não estou tendo relação, não preciso fazer exame”.  Não tem nada a ver. A sífilis fica latente por mais de dez anos. A transmissibilidade diminui na latência, mas ela ainda acontece. A pessoa não está sentindo nada e pode transmitir. É preciso que a busca pelo diagnóstico aconteça mesmo sem sintomas. E também que seja feito um pré-natal precoce, que inclua o parceiro, para que ele também faça o exame e, se for o caso, os dois se tratem juntos. É muito comum a mulher se tratar e voltar a ficar doente simplesmente porque o parceiro não se cuidou também.  Façam isso pelo bem-estar de vocês, do bebê e de todos.