segunda-feira, 23 de maio de 2016


Nos três primeiros meses deste ano, a Bahia registrou 9.795 casos de violência física contra mulheres. Na comparação com o mesmo período de 2015, houve redução de 32%, segundo a Secretaria de Segurança Pública do estado. Os dados levam em conta os registros de homicídio doloso (com intenção de matar), tentativa de homicídio, lesão corporal intencional, estupro e ameaça.
Quase todos os tipos de violência registraram queda em relação ao ano anterior, no entanto, o número de homicídios entre janeiro e março subiu de 73 em 2015 para 80 este ano.
Apesar da redução, a secretária de Políticas para as Mulheres da Bahia, Olívia Santana, diz que os números continuam alarmantes e que a legislação não é suficiente para conter a violência contra a mulher.
“Temos que mexer nos espaços estratégicos, que é o espaço da educação. O sistema educacional precisa se abrir para a promoção da igualdade de gênero. Enquanto essa temática não for tratada nas escolas, como um desafio civilizatório que precisa ser cumprido, a gente vai continuar oferecendo às gerações uma formação que reproduz o machismo e a ideologia do patriarcado, na qual o homem se sente tão superior à mulher que alguns se sentem até no direito de tirar a vida das mulheres”, disse Olívia.
“Nós avaliamos como lamentável que, em pleno século 21, ainda tenhamos que conviver com essas estatísticas de homicídios de mulheres. Mas a legislação foi uma conquista fundamental, como a Lei Maria da Penha e a lei que tipifica o feminicídio como um crime hediondo”, acrescentou.
Cumprimento da lei
A secretária ressaltou que a ausência de discussão sobre questões de gênero nas escolas e no ambiente familiar perpetuam o discurso e as atitudes que sustentam a violência contra a mulher, além de transferir para as vítimas a culpa por terem sofrido violência.
Segundo Olívia, a garantia e a rapidez na punição aos agressores é umas das medidas para reduzir a violência de gênero.
“O Judiciário precisa se apropriar plenamente dessa questão do feminicídio, tem que garantir julgamentos mais céleres e garantir que as medidas protetivas sejam garantidas, para que as mulheres que já denunciaram seus algozes gozem de proteção. O Judiciário às vezes leva meses para julgar, os criminosos acabam ficando em liberdade e deixando as mulheres em risco. É uma situação que exige um maior comprometimento do Poder Judiciário, em fazer valer as leis Maria da Penha e do feminicídio”.
Denúncias sobre qualquer tipo de violência contra a mulher podem ser feitas pelo disque 100 ou 180. O anonimato do denunciante é garantido.
Agência Brasil

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Pesquisa mostra que 86% das mulheres brasileiras sofreram assédio em público

O assobio é o mais comum (77%), seguido por olhares insistentes (74%), comentários de cunho sexual (57%) e xingamentos (39%).

Pesquisa divulgada pela organização internacional de combate à pobreza ActionAid nesta sexta-feira (20) mostra que 86% das mulheres brasileiras ouvidas sofreram assédio em público em suas cidades. O levantamento mostra que o assédio em espaços públicos é um problema global, já que, na Tailândia, também 86% das mulheres entrevistadas, 79% na Índia, e 75% na Inglaterra já vivenciaram o mesmo problema.
A pesquisa foi feita pelo Instituto YouGov no Brasil, na Índia, na Tailândia e no Reino Unido e ouviu 2.500 mulheres com idade acima de 16 anos nas principais cidades destes quatro países. No Brasil, foram pesquisadas 503 mulheres de todas as regiões do país, em uma amostragem que acompanhou o perfil da população brasileira feminina apontado pelo censo populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Chega de Fiu Fiu: mapa no CORREIO permite denúncia anônima de assédio
Todas as estudantes afirmaram que já foram assediadas em suas cidades. Para a pesquisa, foram considerados assédio atos indesejados, ameaçadores e agressivos contra as mulheres, podendo configurar abuso verbal, físico, sexual ou emocional.
Formas de assédio
Em relação às formas de assédio sofridas em público pelas brasileiras, o assobio é o mais comum (77%), seguido por olhares insistentes (74%), comentários de cunho sexual (57%) e xingamentos (39%). Metade das mulheres entrevistadas no Brasil disse que já foi seguida nas ruas, 44% tiveram seus corpos tocados, 37% disseram que homens se exibiram para elas e 8% foram estupradas em espaços públicos.

“É quase uma exceção raríssima que uma mulher não tenha sofrido assédio em um espaço público. É muito preocupante. A experiência de medo, de ser assediada, de sofrer xingamento, olhares, serem seguidas, até estupro e assassinato. Os dados são impressionantes se pensarmos que a metade das mulheres diz que foi seguida nas ruas, metade diz que teve o corpo tocado”, diz a representante da ONU Mulheres, Nadine Gasman.
Desigualdade de gêneros
Para a representante da ONU Mulheres no Brasil, os dados refletem a desigualdade entre homens e mulheres na sociedade. “É uma questão de gênero, de entender que na sociedade, qualquer que seja, as mulheres não são consideradas iguais aos homens. A ideia é que a mulher está subordinada no lar, na casa, no trabalho. Dados [da Organização Mundial da Saúde] apontam que uma a cada três mulheres sofre violência doméstica. Para os homens, os corpos e as vidas das mulheres são uma propriedade, está para ser olhada, tocada, estuprada”, disse.

Segundo Nadine, é necessário implementar políticas públicas que garantam a segurança da mulher em espaços públicos, com políticas públicas específicas, como a iluminação adequada das ruas e transporte público exclusivo para mulheres.
“Quando se pensa que quase todas as mulheres têm a experiência com abusos, não se tem a ideia do assédio. Isso tem um impacto, isso limita de andar na rua com segurança e direitos como educação e trabalho”, diz.
Falta repressão
A professora de direito civil da Universidade de Brasília (UnB), Suzana Borges, avalia que não há repressão adequada ao assédio à mulher em espaços públicos.

“É uma questão social porque, em função de uma posição histórica inferiorizada, a mulher foi objeto de repressão, violência, não só nos espaços públicos, mas privados, dentro da família, em casa, no trabalho”, disse.
Suzana Borges diz que há necessidade das mulheres denunciarem as situações de assédio que vivenciam no cotidiano. “Por se tratar de uma questão de gênero, a denúncia é um mecanismo que reforça a proteção”.
Assédio por regiões
A Região Centro-Oeste é onde as mulheres mais sofreram assédio nas ruas, com 92% de incidência do problema. Em seguida, vêm Norte (88%), Nordeste e Sudeste (86%) e Sul (85%).

No levantamento, as mulheres também foram questionadas sobre em quais situações elas sentiram mais medo de serem assediadas. 70% responderam que ao andar pelas ruas; 69%, ao sair ou chegar em casa depois que escurece e 68% no transporte público.
Na comparação com outros países, 43% das mulheres ouvidas na Inglaterra e 62% na Tailândia disseram que se sentiam mais inseguras nas ruas de suas cidades, enquanto que, na Índia, o espaço de maior insegurança era o transporte público, apontado por 65% das entrevistadas.
Campanha
Os dados são publicados no lançamento do Dia Internacional de Cidades Seguras para as Mulheres, uma iniciativa da organização para chamar a atenção para os problemas de assédio e violência enfrentados pelas mulheres nas cidades de todo o mundo.

“É bastante preocupante que não haja uma perspectiva de gênero nas cidades, um planejamento que não leve isso em conta, como horários, transportes e abordagem de ensino nas escolas. Isso gera e perpetua uma cultura de violência, normatizada e normalizada, de fazer parte do desenvolvimento masculino assediar mulheres e isso não é questionado. A pesquisa mostra a naturalização da violência como uma prática bastante arraigada. Há a necessidade urgente e setorial de se enfrentar isso”, disse a coordenadora da campanha Cidades Seguras para as Mulheres no Brasil, Glauce Arzua.
A campanha Cidades Seguras para as Mulheres foi lançada pela ActionAid no Brasil em 2014. O objetivo é promover uma melhoria da qualidade dos serviços públicos nas cidades para tornar os espaços urbanos mais receptivos a mulheres e meninas.
Glauce aponta a educação como aspecto fundamental para que seja possível reverter o quadro de assédio ao redor do mundo. “A abordagem educacional é uma chave para o enfrentamento. Medidas como acontecem no Brasil, de vagões de trem separados, são paliativas, transitórias. Temos que quebrar essa cultura, que passa por campanhas, treinamento dos gestores, sobretudo criar espaços para que o planejamento das cidades tenha essa perspectiva de gênero”, diz.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Não tem como não destacar a fala deste juiz. Para ele, uma mulher precisa se opor ao ato de maneira "séria, efetiva, sincera e indicativa". Segundo palavras absurdas dele, não basta "a simples relutância, as negativas tímidas ou a resistência inerte" por parte da vítima. O juiz ainda disse que a violência moral não é "clarividente". A menina tinha 16 anos e foi passar o final de semana com o seu avô que cometeu o ato no quarto do hotel. Vocês me digam: quando vocês viajam com um avô, um pai ou um familiar, vocês automaticamente pensam que isso pode acontecer? A menina, 20 dias depois do ocorrido, foi encontrada com o revólver do padrasto tentando cometer suicídio. Vocês tem noção do dano que isso causa na vida de uma menina de 16 anos? As palavras e a decisão foram, pra dizer o mínimo, absurdas.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Cirandas Parceiras: A Defensoria Pública e os Invisíveis 


No dia 27 de abril de 2016, o Projeto Força Feminina teve a honra de receber a assistente social Meire Gomes,acompanhada de Mafá, da Equipe Multidisciplinar da Especializada de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado da Bahia, situada no bairro Canela.

O evento contou com a participação de 40 estudantes de universidades públicas e particulares de Salvador, além de representantes de instituições parceiras do Força Feminina.
A temática abordada foi em relação aos serviços prestados na Defensoria ao público de pessoas invisíveis em nossa sociedade como: moradores de rua, mulheres em situação de prostituição e usuários de substâncias psicoativas. 

Em uma de suas falas, Meire ressaltou a importância do trabalho em rede com instituições que desenvolvem o mesmo objetivo, este, de criar espaços de discussões e políticas públicas para dar visibilidade à população ainda fortemente marginalizada, além de realizarem trabalhos diretos com esse público.
 "A participação da Defensoria na rede é importante porque tenta efetivar não só os decretos, mas também a garantia do direito das pessoas terem acesso à saúde. É uma grande contribuição em prol das pessoas em situação de rua para garantir os direitos que já são deles pela Constituição Federal", disse a assistente social Meire Gomes.


Acrescentou, ainda, as ações que a Defensoria Pública da Bahia desenvolve em prol das pessoas em situação de rua no Centro Histórico de Salvador. "Disponibilizamo-nos sempre para os atendimentos das demandas que nos são apresentadas. Na saúde, enquanto equipe, lutamos pela garantia dos internamentos, de medicação e na garantia de inserirmos os equipamentos para o abrigo; a Defensoria sempre é solicitada na perspectiva de garantir os direitos que já estão assegurados", explicou Meire.







terça-feira, 19 de abril de 2016

Ressurreição no cotidiano da Vida da Mulher em situação de Prostituição.

Retomando a etimologia da palavra em latim resurrectio, em grego anastasis com o significado literalmente levantar, erguer. Em português é o ato de ressurgir, voltar à vida.
A Bíblia traz não somente a Ressurreição de Jesus, (Jo 20,1-9) mas também a de Lázaro (Jo 11,41-44), o filho da viúva de Naim( Lucas7,11-17), a filha de Jairo(Lc  8.41-42. 49 -55) esses são alguns textos que encontramos no segundo testamento( bíblia) que trazem a ressurreição como direito a começar de novo.
Lembro aqui que ressurreição não tem nada haver com vivificação de cadáver, aquele (a) que passa pela experiência da Ressurreição descobriu em si a alegria do que é ser semente. O mistério do grão de mostarda que ao ser lançada na terra precisa morrer para frutificar, semente que não morre não gera vida.
E aqui peço licença para citar parte de uma música que ao longo desses anos certamente ainda que não saibam diversas mulheres que tive a graça de acompanhar conhecer e escutar um pouco de suas histórias, carregam traços de ressurreição com garra vivem a luta ordinária de um começar e recomeçar de novo. Suas vidas se conectam nestes versos, relatam suas dores e a força em seguir lutando: “Tantas vezes me mataram/ Tantas vezes eu morri/ Mas agora estou aqui ressuscitando/ Agradeço meu destino e a essa mão com um punhal/ Porque me matou tão mal e eu segui cantando. Cantando ao sol Como uma cigarra/ Depois de um ano em baixo da terra/ Igual a um sobrevivente regressando da guerra. Mas depois de tanto pranto/Eu aos poucos percebi/Que o meu sonho não tem dono e segui cantando.”
E a canção continua: Tantas vezes te mataram, tantas ressuscitarás...
Ressuscitar para essas mulheres é o que acontece no cotidiano de suas vidas, no meio de tanto luto que a vida, a sociedade lhe faz carregar com o estguima de estar onde estar em ter que levar dinheiro para “casa” vendendo seus corpos se colocando a venda.
Morrem se aí no sepulcro dos que a mantém na invisibilidade, diante dos clientes violentos e abusivos, do marido (companheiro) que cobra para protege La, dos filhos que a exploram, dos familiares e vizinhos que vendem o teu silencio.
Vidas que cruzam com tantas vidas na busca de alguém anunciem também a elas que o tumulo está vazio. Como Serra e Antonia é preciso anunciar, convidar para a Páscoa celebrar, da semente que morre nasce uma vida.
Que complexo sistema social, temos mulheres sofridas, marcadas pelo abandono na suas diferentes esferas, seus sonhos foram roubados ainda na infância, as utopias se perderam pelo caminho, trajetória que a falta e o não lugar ainda hoje as acompanham, no entanto são mulheres que vivem


com alegria paralelamente a solidão levanta em meio à adversidade da prostituição, voltar à vida e se erguer é tão comum, repetiram isso por tantas outras vezes que poderíamos chama las de mulheres da Ressurreição.
Todavia a ressurreição só acontece de fato quando se tem noção do ocorrido, a experiência leva tempo, a semente antes de brotar tem que dormir embaixo da terra. A fecundidade demanda espera.
Não podemos esperar, temos pressa à cultura do imediato nos faz esquecer o processo que Antonia e Serra tinham com o pouco a pouco, ressurreição compartilhada, para mulheres fragmentadas.

A ressurreição se dará quando as trevas (dor e luto, exploração, alcoolismo, desumanização) forem dissipadas. A luz então resplenderá a experiência de que Ele vive por que ressuscitou e agora somos nascidos de novo poderá ser vivenciada com seus sonhos restaurados, seus direitos de mulher cidadã respeitada, a dignidade humana retomada uma nova historia sendo contada.

Ana Paula Assis