quarta-feira, 22 de junho de 2016
segunda-feira, 6 de junho de 2016
"O governo da igreja nunca respeitou totalmente as vidas"
Fabiana Mascarenhas
Quem é essa freira feminista que desafiou a igreja? A pergunta me foi feita por um desconhecido quando chegava à Biblioteca Pública dos Barris para entrevistar Ivone Gebara, 72. Logo na entrada, um cartaz estampava a foto da teóloga e anunciava uma palestra que ela ministraria naquela noite a convite da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese). Doutora em filosofia pela Universidade Católica de São Paulo e em ciências religiosas pela Universidade Católica de Lovânia, na Bélgica, Ivone lecionou durante 17 anos no Instituto de Teologia do Recife, onde viveu por 34 anos. Conhecida por declarar publicamente ser a favor do aborto e militante dos direitos das mulheres, desafiou o pensamento oficial católico e propôs novos caminhos para a teologia. Pagou caro por suas posições, consideradas revolucionárias. A hierarquia da igreja impôs-lhe o silêncio. Em 1999, foi proibida pelo Vaticano de ministrar aulas e falar em público. O castigo não a intimidou. Sua voz e seus pensamentos continuam ecoando por meio de palestras e dos mais de 30 livros escritos, entre eles Rompendo o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal e As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade. Nesta entrevista concedida à Muito Ivone contou que, por questões de saúde, voltou a viver em São Paulo há três anos. Mas permanece católica e certa de suas convicções. Quem é Ivone Gebara?, perguntou-me o desconhecido. Confira nesta entrevista.
A senhora pensou em ser freira quando ainda estava na faculdade de filosofia, na década de 60. E diz que fez essa opção buscando ter mais liberdade. Não parece um tanto contraditório que tenha buscado liberdade dentro de um convento, de uma estrutura conservadora como a Igreja Católica?
De fato, parece um tanto contraditório, mas, embora muitos acreditem que o convento não é um lugar de liberdade, paradoxalmente, para mim, foi. Naquela época, tive a oportunidade de ser colega de turma e conviver com algumas freiras e percebia o quanto aquelas mulheres eram intelectualmente brilhantes e, ao mesmo tempo, comprometidas com o mundo dos pobres. Elas realizavam trabalhos incríveis com crianças e adolescentes das periferias. Achei que aquele caminho era extraordinário e, ao mesmo tempo, gostava da ideia de não precisar reproduzir o modelo familiar dos meus pais. Eu queria um mundo maior, mais amplo para mim. Não sei de onde vinham essas ideias, mas imaginava que o mundo podia ser diferente.
De fato, parece um tanto contraditório, mas, embora muitos acreditem que o convento não é um lugar de liberdade, paradoxalmente, para mim, foi. Naquela época, tive a oportunidade de ser colega de turma e conviver com algumas freiras e percebia o quanto aquelas mulheres eram intelectualmente brilhantes e, ao mesmo tempo, comprometidas com o mundo dos pobres. Elas realizavam trabalhos incríveis com crianças e adolescentes das periferias. Achei que aquele caminho era extraordinário e, ao mesmo tempo, gostava da ideia de não precisar reproduzir o modelo familiar dos meus pais. Eu queria um mundo maior, mais amplo para mim. Não sei de onde vinham essas ideias, mas imaginava que o mundo podia ser diferente.
E por que a incomodava a ideia de reproduzir o modelo familiar dos seus pais? Acha que, desde essa época, já tinha o espírito feminista?
Acho que não era feminista, mas apenas uma pessoa buscando a própria felicidade. Naquela época eu já participava do movimento estudantil, embora não tenha sido muito atuante, porque minha família não gostava muito que ficasse fora de casa. Participei da União Nacional dos Estudantes (UNE), fui diretora do Centro de Filosofia, ajudei a fundar um jornalzinho, enfim. Para mim, esse mundo era mais amplo do que ter filhos, cozinhar, brigar com o marido, ficar vendo se o dinheiro dá ou não para as compras. A possibilidade que se apresentou para mim foi essa. Os fios da minha história se teceram dessa forma.
Acho que não era feminista, mas apenas uma pessoa buscando a própria felicidade. Naquela época eu já participava do movimento estudantil, embora não tenha sido muito atuante, porque minha família não gostava muito que ficasse fora de casa. Participei da União Nacional dos Estudantes (UNE), fui diretora do Centro de Filosofia, ajudei a fundar um jornalzinho, enfim. Para mim, esse mundo era mais amplo do que ter filhos, cozinhar, brigar com o marido, ficar vendo se o dinheiro dá ou não para as compras. A possibilidade que se apresentou para mim foi essa. Os fios da minha história se teceram dessa forma.
De que forma o seu caminho e o do feminismo se cruzaram?
O feminismo entrou na minha vida no final da década de 70, quando estava em Recife, onde passei 34 anos. Eu me sinto mais nordestina, inclusive, que paulista. Acho que foi lá que fui me tornando feminista. Alguns livros sobre feminismo caíram no meu colo, li muito sobre o tema. Mas, além da literatura, a convivência com as mulheres também me levou para esse caminho. Fui me dando conta do quanto estava defasada, mesmo já sendo teóloga da libertação. Lutava pela libertação dos pobres, dava cursos, andava pelas cidades do interior, mas só acordei para o fato de que o sujeito feminino era diferente do masculino - do ponto de vista da vivência corporal, social, política - na convivência com elas. Lembro-me de que, certa vez, a mulher de um operário me disse que eu falava feito um homem. Que eu só sabia falar de sindicato, de política e que não entendia nada das dores, dificuldades e problemas das mulheres. Fiquei muito assustada com aquilo e comecei a chorar, mas não de raiva. Eram lágrimas de consciência. Percebi que falava a mesma linguagem patriarcal da igreja e não apreendia o sofrimento particular das mulheres. Esse foi um grande aprendizado e não apenas sobre elas, mas sobre mim, porque descobri que também não me conhecia.
O feminismo entrou na minha vida no final da década de 70, quando estava em Recife, onde passei 34 anos. Eu me sinto mais nordestina, inclusive, que paulista. Acho que foi lá que fui me tornando feminista. Alguns livros sobre feminismo caíram no meu colo, li muito sobre o tema. Mas, além da literatura, a convivência com as mulheres também me levou para esse caminho. Fui me dando conta do quanto estava defasada, mesmo já sendo teóloga da libertação. Lutava pela libertação dos pobres, dava cursos, andava pelas cidades do interior, mas só acordei para o fato de que o sujeito feminino era diferente do masculino - do ponto de vista da vivência corporal, social, política - na convivência com elas. Lembro-me de que, certa vez, a mulher de um operário me disse que eu falava feito um homem. Que eu só sabia falar de sindicato, de política e que não entendia nada das dores, dificuldades e problemas das mulheres. Fiquei muito assustada com aquilo e comecei a chorar, mas não de raiva. Eram lágrimas de consciência. Percebi que falava a mesma linguagem patriarcal da igreja e não apreendia o sofrimento particular das mulheres. Esse foi um grande aprendizado e não apenas sobre elas, mas sobre mim, porque descobri que também não me conhecia.
E como é ser uma freira feminista?
É algo desafiante e, à primeira vista, completamente contraditório porque ser freira significa que você está ligada à instituição católica, apostólica, romana, que é uma congregação religiosa governada por homens e, portanto, predominantemente masculina. Mas é também interessante porque, mesmo nesse universo patriarcal, é possível encontrar mulheres livres, que conseguem fazer o seu bailado com a finalidade de se realizar como pessoa, mas também de ajudar a mudar esse mesmo mundo, que é bastante cúmplice da opressão das mulheres.
É algo desafiante e, à primeira vista, completamente contraditório porque ser freira significa que você está ligada à instituição católica, apostólica, romana, que é uma congregação religiosa governada por homens e, portanto, predominantemente masculina. Mas é também interessante porque, mesmo nesse universo patriarcal, é possível encontrar mulheres livres, que conseguem fazer o seu bailado com a finalidade de se realizar como pessoa, mas também de ajudar a mudar esse mesmo mundo, que é bastante cúmplice da opressão das mulheres.
A sua congregação, a Irmãs de Nossa Senhora, é formada somente por mulheres. Há outras feministas como a senhora?
Há, mas poucas. Nada que possa ser contado nos dedos das duas mãos.
Há, mas poucas. Nada que possa ser contado nos dedos das duas mãos.
A senhora foi obrigada pelo Vaticano a estudar novamente com a justificativa de que precisava reaprender a doutrina católica, após ter dado uma entrevista para uma revista colocando-se a favor do aborto. Como religiosa, a senhora nunca considerou o aborto um pecado?
Na verdade, nem pensava sobre isso. Claro que sabia que as mulheres abortavam, mas era como um véu, principalmente no convento. Quando era universitária, as pessoas só falavam em política. Me aproximei da realidade dessas mulheres quando passei a viver em um bairro popular no Recife. Realizávamos reuniões periódicas com elas e sempre ficava sabendo que uma ou outra não iria porque estava no hospital. Ou também acontecia de alguma aparecer pedindo dinheiro para comprar remédio. Fui sendo educada pela vida, mas durante muito tempo não falei sobre isso. Tinha medo de falar. Eu as apoiava por misericórdia, porque era trágico, porque era minha vizinha, era minha irmã que estava ali vivendo uma situação humanamente insustentável. Por isso, me dá raiva quando vejo que os homens da igreja não conseguem perceber essas situações concretas e utilizam a teoria do princípio da vida para condenar o aborto. O discurso de que Deus ama todo mundo é bonito, mas não tem operacionalidade quando nos deparamos com situações como essas.
Na verdade, nem pensava sobre isso. Claro que sabia que as mulheres abortavam, mas era como um véu, principalmente no convento. Quando era universitária, as pessoas só falavam em política. Me aproximei da realidade dessas mulheres quando passei a viver em um bairro popular no Recife. Realizávamos reuniões periódicas com elas e sempre ficava sabendo que uma ou outra não iria porque estava no hospital. Ou também acontecia de alguma aparecer pedindo dinheiro para comprar remédio. Fui sendo educada pela vida, mas durante muito tempo não falei sobre isso. Tinha medo de falar. Eu as apoiava por misericórdia, porque era trágico, porque era minha vizinha, era minha irmã que estava ali vivendo uma situação humanamente insustentável. Por isso, me dá raiva quando vejo que os homens da igreja não conseguem perceber essas situações concretas e utilizam a teoria do princípio da vida para condenar o aborto. O discurso de que Deus ama todo mundo é bonito, mas não tem operacionalidade quando nos deparamos com situações como essas.
Mas de que maneira e com quais argumentos a senhora busca desconstruir esse discurso de que o aborto é pecado?
Acho que nenhum argumento convence os patriarcas da igreja porque, na realidade, eles têm um poder sobre o corpo das mulheres. Quando você pergunta para uma mulher se Deus é homem ou mulher, o que ela responde? Homem. A partir daí você já tem a essência dessa pessoa habitada pelo poder masculino. Nós, teólogas feministas, dizemos o contrário. Acreditamos que quem me habita sou eu. Não defendo o aborto, apenas reconheço que ele existe. Assim como não defendo que ninguém se drogue, mas reconheço a existência do sério problema das drogas. A igreja utiliza o argumento do respeito à vida, mas o próprio governo da igreja nunca respeitou totalmente as vidas. Sempre existiu o controle dos pensamentos, dos corpos, caça às bruxas. Eles sempre fizeram essas coisas. Esse negócio de 'o princípio da vida' não se sustenta. Esses princípios não dão às mulheres o direito à escolha. As igrejas não podem impor suas ideologias a todos os cidadãos de um país. É preciso cultivar uma educação, seja nas escolas, nos partidos ou nos meios de comunicação, que as pessoas sejam capazes de avaliar o que é melhor para elas e fazerem suas escolhas de modo consciente. E também é necessário que haja uma assistência digna porque o aborto é um problema de saúde pública, que causa muitos transtornos para as mulheres e para as famílias.
Acho que nenhum argumento convence os patriarcas da igreja porque, na realidade, eles têm um poder sobre o corpo das mulheres. Quando você pergunta para uma mulher se Deus é homem ou mulher, o que ela responde? Homem. A partir daí você já tem a essência dessa pessoa habitada pelo poder masculino. Nós, teólogas feministas, dizemos o contrário. Acreditamos que quem me habita sou eu. Não defendo o aborto, apenas reconheço que ele existe. Assim como não defendo que ninguém se drogue, mas reconheço a existência do sério problema das drogas. A igreja utiliza o argumento do respeito à vida, mas o próprio governo da igreja nunca respeitou totalmente as vidas. Sempre existiu o controle dos pensamentos, dos corpos, caça às bruxas. Eles sempre fizeram essas coisas. Esse negócio de 'o princípio da vida' não se sustenta. Esses princípios não dão às mulheres o direito à escolha. As igrejas não podem impor suas ideologias a todos os cidadãos de um país. É preciso cultivar uma educação, seja nas escolas, nos partidos ou nos meios de comunicação, que as pessoas sejam capazes de avaliar o que é melhor para elas e fazerem suas escolhas de modo consciente. E também é necessário que haja uma assistência digna porque o aborto é um problema de saúde pública, que causa muitos transtornos para as mulheres e para as famílias.
Esse domínio patriarcal atinge não somente as mulheres, mas todos os que não são considerados 'tradicionais' ou estão distantes do ideal imposto pela sociedade. E isso inclui os homossexuais. Qual a sua opinião?
Ninguém pode colocar o amor entre pessoas dentro de um modelo preestabelecido. Pode ser um homem ou uma mulher, dois homens, pode ser uma mulher transexual, pode ser um travesti, o amor é amor. Quem pode determinar quem eu tenho que amar? Quem pode determinar que a melhor sexualidade ou melhor orientação sexual é esta ou aquela? Se é recíproco, se existe amor, cuidado, respeito, não deve haver regras.
Ninguém pode colocar o amor entre pessoas dentro de um modelo preestabelecido. Pode ser um homem ou uma mulher, dois homens, pode ser uma mulher transexual, pode ser um travesti, o amor é amor. Quem pode determinar quem eu tenho que amar? Quem pode determinar que a melhor sexualidade ou melhor orientação sexual é esta ou aquela? Se é recíproco, se existe amor, cuidado, respeito, não deve haver regras.
Ter sido silenciada pelo Vaticano foi o pior dos castigos que a senhora já sofreu por se posicionar e expor suas ideias?
Ter passado um tempo em silêncio e fora do país foi algo penoso, mas não foi o maior sofrimento. Para mim, o pior foi ter visto tantas dores e, muitas vezes, não poder fazer nada. E, mais uma vez, pode parecer contraditório, mas, ao mesmo tempo, foi uma alegria esse castigo porque muitas mulheres começaram a mostrar a cara dentro da igreja. Foi a partir daí que o Movimento Católicas pelo Direito de Decidir foi criado e se mantém até hoje [O Católicas pelo Direito de Decidir foi um movimento social criado no Brasil e em outros países da América Latina na década de 90 que se apoia na prática e teoria feministas para promover mudanças na sociedade, especialmente nos padrões culturais e religiosos]. Isso criou dentro da Igreja Católica um espaço de reflexão diferente do tradicional.
Ter passado um tempo em silêncio e fora do país foi algo penoso, mas não foi o maior sofrimento. Para mim, o pior foi ter visto tantas dores e, muitas vezes, não poder fazer nada. E, mais uma vez, pode parecer contraditório, mas, ao mesmo tempo, foi uma alegria esse castigo porque muitas mulheres começaram a mostrar a cara dentro da igreja. Foi a partir daí que o Movimento Católicas pelo Direito de Decidir foi criado e se mantém até hoje [O Católicas pelo Direito de Decidir foi um movimento social criado no Brasil e em outros países da América Latina na década de 90 que se apoia na prática e teoria feministas para promover mudanças na sociedade, especialmente nos padrões culturais e religiosos]. Isso criou dentro da Igreja Católica um espaço de reflexão diferente do tradicional.
A senhora acredita que a igreja precisa repensar suas doutrinas?
Primeiro, precisamos pensar o que é a igreja. Sempre que falamos dela, pensamos nos bispos, nos padres, no papa, e eles são apenas funcionários dessa instituição. A igreja sou eu, é você, é o povão. A mesma coisa é quando a gente fala do Brasil. O Brasil não é só a prefeitura, o governo do estado, o governo federal. É a diversidade de pessoas e grupos que constituem a nação brasileira. Agora, sinceramente, não espero grandes mudanças do governo da igreja. Eu acredito, sim, que as pessoas que pensam diferente e querem seguir a tradição de Jesus em qualquer igreja precisam começar a se organizar, a fazer pressão. A mudança não virá de cima. Não acho que a autoridade político-religiosa vá mudar. Nós é que temos que mudar. É uma luta? É, e não se pode ter medo. Se queremos, façamos.
Primeiro, precisamos pensar o que é a igreja. Sempre que falamos dela, pensamos nos bispos, nos padres, no papa, e eles são apenas funcionários dessa instituição. A igreja sou eu, é você, é o povão. A mesma coisa é quando a gente fala do Brasil. O Brasil não é só a prefeitura, o governo do estado, o governo federal. É a diversidade de pessoas e grupos que constituem a nação brasileira. Agora, sinceramente, não espero grandes mudanças do governo da igreja. Eu acredito, sim, que as pessoas que pensam diferente e querem seguir a tradição de Jesus em qualquer igreja precisam começar a se organizar, a fazer pressão. A mudança não virá de cima. Não acho que a autoridade político-religiosa vá mudar. Nós é que temos que mudar. É uma luta? É, e não se pode ter medo. Se queremos, façamos.
Falando em governo, atualmente temos diversos políticos que são líderes religiosos no poder. A senhora acha perigoso misturar religião e política?
É bastante perigoso juntar religião e política, principalmente porque, aqui no Brasil, os políticos acham que podem falar em nome de Deus. Eles têm que olhar qual a necessidade do povo. É claro que podem ter convicções religiosas, mas não usar o nome de Deus ou a Bíblia para atingir seus interesses. Partilhar o pão, dar de comer a quem tem fome, vestir os nus, dar de beber a quem tem sede, visitar os doentes e prisioneiros são a base do cristianismo, mas eles não praticam. Eles só usam a religião quando os interessa. Sacam de textos e palavras dizendo que foi Deus quem disse. Essa articulação é que é nefasta.
É bastante perigoso juntar religião e política, principalmente porque, aqui no Brasil, os políticos acham que podem falar em nome de Deus. Eles têm que olhar qual a necessidade do povo. É claro que podem ter convicções religiosas, mas não usar o nome de Deus ou a Bíblia para atingir seus interesses. Partilhar o pão, dar de comer a quem tem fome, vestir os nus, dar de beber a quem tem sede, visitar os doentes e prisioneiros são a base do cristianismo, mas eles não praticam. Eles só usam a religião quando os interessa. Sacam de textos e palavras dizendo que foi Deus quem disse. Essa articulação é que é nefasta.
Você é considerada perigosa. Nunca teve medo ou pensou em desistir da igreja?
Nunca pensei em desistir, porque a igreja faz parte da minha vida. Sou considerada perigosa porque as pessoas acreditam que uma freira não pode pensar dessa forma, não pode ser católica. Ser católica é ser universal, e isso inclui uma diversidade de coisas. Na tradição dos evangelhos não é a uniformidade que conta, mas o cuidado, o amor, a prática da partilha, da justiça. É isso o que constitui a alma do evangelho, não são as leis que foram estabelecidas em um determinado momento da história da igreja. E sobre o medo, nunca tive. O que eles podem fazer? Me cassar? Não adianta, mesmo me cassando, não vou parar de falar. Não vão me calar.
Nunca pensei em desistir, porque a igreja faz parte da minha vida. Sou considerada perigosa porque as pessoas acreditam que uma freira não pode pensar dessa forma, não pode ser católica. Ser católica é ser universal, e isso inclui uma diversidade de coisas. Na tradição dos evangelhos não é a uniformidade que conta, mas o cuidado, o amor, a prática da partilha, da justiça. É isso o que constitui a alma do evangelho, não são as leis que foram estabelecidas em um determinado momento da história da igreja. E sobre o medo, nunca tive. O que eles podem fazer? Me cassar? Não adianta, mesmo me cassando, não vou parar de falar. Não vão me calar.
O FORÇA PRESENTE NESSE DIA DE APRENDIZADO!
quinta-feira, 2 de junho de 2016
CIRANDAS PARCEIRAS
No último dia 25/05, aconteceu no
Projeto Força Feminina, Unidade Oblata em Salvador, o 3º encontro do evento:
Cirandas Parceiras, cujo tema central foi: MOVIMENTOS
SOCIAIS E O DIREITO DA MULHER, conduzido pela Drª Maíse Zucco, que atua principalmente no campo dos estudos de gênero,
história das mulheres e dos movimentos feministas, formação e formação
continuada de professoras/es e políticas públicas educacionais.
A priori, embasada em
estudos e pesquisas feitas acerca da historicidade dos movimentos sociais, bem
como a fragmentação dos diversos segmentos do feminismo, foram explicitadas de
uma forma bem clara a importância deste movimento para a questão de gênero no
Brasil e principalmente para a construção de políticas especificas ao público
feminino. A posteriori, a docente
trouxe também, um breve estudo de gênero, perpassando pelo conceito de
identidade: mulher, transgênero e homem; expressão de gênero: feminino,
andrógeno e masculino; sexo biológico e orientação sexual.
Nesse contexto,
percebe-se então que, os direitos da mulher, advém de uma luta histórica que
caminha pelo conflito da imposição da sociedade em construir padrões
normativos, com às ações efetivas do movimento feminista afim de confrontar
tais padrões. Assim, fica claro que, o movimento feminista trouxe novas perspectivas
predominantes em diversas áreas da sociedade e que as campanhas feitas outrora
por ativistas femininas influenciaram diretamente na conquista pelos direitos
legais da mulher, principalmente pelo direito desta à sua autonomia e
integridade do seu próprio corpo.
Convém ressaltar que,
tais reflexões foram feitas não somente pelas instituições parceiras e discentes
da área social, mas por algumas mulheres atendidas pelo projeto, que claramente
identificaram que, através de uma história de luta, elas podem e devem
construir um caminho de protagonismo, tornando-se agente de transformação da
sua própria vida.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Nos três primeiros meses deste ano, a Bahia registrou 9.795 casos de violência física contra mulheres. Na comparação com o mesmo período de 2015, houve redução de 32%, segundo a Secretaria de Segurança Pública do estado. Os dados levam em conta os registros de homicídio doloso (com intenção de matar), tentativa de homicídio, lesão corporal intencional, estupro e ameaça.
Quase todos os tipos de violência registraram queda em relação ao ano anterior, no entanto, o número de homicídios entre janeiro e março subiu de 73 em 2015 para 80 este ano.
Apesar da redução, a secretária de Políticas para as Mulheres da Bahia, Olívia Santana, diz que os números continuam alarmantes e que a legislação não é suficiente para conter a violência contra a mulher.
“Temos que mexer nos espaços estratégicos, que é o espaço da educação. O sistema educacional precisa se abrir para a promoção da igualdade de gênero. Enquanto essa temática não for tratada nas escolas, como um desafio civilizatório que precisa ser cumprido, a gente vai continuar oferecendo às gerações uma formação que reproduz o machismo e a ideologia do patriarcado, na qual o homem se sente tão superior à mulher que alguns se sentem até no direito de tirar a vida das mulheres”, disse Olívia.
“Nós avaliamos como lamentável que, em pleno século 21, ainda tenhamos que conviver com essas estatísticas de homicídios de mulheres. Mas a legislação foi uma conquista fundamental, como a Lei Maria da Penha e a lei que tipifica o feminicídio como um crime hediondo”, acrescentou.
Cumprimento da lei
A secretária ressaltou que a ausência de discussão sobre questões de gênero nas escolas e no ambiente familiar perpetuam o discurso e as atitudes que sustentam a violência contra a mulher, além de transferir para as vítimas a culpa por terem sofrido violência.
Segundo Olívia, a garantia e a rapidez na punição aos agressores é umas das medidas para reduzir a violência de gênero.
“O Judiciário precisa se apropriar plenamente dessa questão do feminicídio, tem que garantir julgamentos mais céleres e garantir que as medidas protetivas sejam garantidas, para que as mulheres que já denunciaram seus algozes gozem de proteção. O Judiciário às vezes leva meses para julgar, os criminosos acabam ficando em liberdade e deixando as mulheres em risco. É uma situação que exige um maior comprometimento do Poder Judiciário, em fazer valer as leis Maria da Penha e do feminicídio”.
Denúncias sobre qualquer tipo de violência contra a mulher podem ser feitas pelo disque 100 ou 180. O anonimato do denunciante é garantido.
Agência Brasil
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Pesquisa mostra que 86% das mulheres brasileiras sofreram assédio em público
O assobio é o mais comum (77%), seguido por olhares insistentes (74%), comentários de cunho sexual (57%) e xingamentos (39%).
Pesquisa divulgada pela organização internacional de combate à pobreza ActionAid nesta sexta-feira (20) mostra que 86% das mulheres brasileiras ouvidas sofreram assédio em público em suas cidades. O levantamento mostra que o assédio em espaços públicos é um problema global, já que, na Tailândia, também 86% das mulheres entrevistadas, 79% na Índia, e 75% na Inglaterra já vivenciaram o mesmo problema.
A pesquisa foi feita pelo Instituto YouGov no Brasil, na Índia, na Tailândia e no Reino Unido e ouviu 2.500 mulheres com idade acima de 16 anos nas principais cidades destes quatro países. No Brasil, foram pesquisadas 503 mulheres de todas as regiões do país, em uma amostragem que acompanhou o perfil da população brasileira feminina apontado pelo censo populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Chega de Fiu Fiu: mapa no CORREIO permite denúncia anônima de assédio
Todas as estudantes afirmaram que já foram assediadas em suas cidades. Para a pesquisa, foram considerados assédio atos indesejados, ameaçadores e agressivos contra as mulheres, podendo configurar abuso verbal, físico, sexual ou emocional.
Formas de assédio
Em relação às formas de assédio sofridas em público pelas brasileiras, o assobio é o mais comum (77%), seguido por olhares insistentes (74%), comentários de cunho sexual (57%) e xingamentos (39%). Metade das mulheres entrevistadas no Brasil disse que já foi seguida nas ruas, 44% tiveram seus corpos tocados, 37% disseram que homens se exibiram para elas e 8% foram estupradas em espaços públicos.
“É quase uma exceção raríssima que uma mulher não tenha sofrido assédio em um espaço público. É muito preocupante. A experiência de medo, de ser assediada, de sofrer xingamento, olhares, serem seguidas, até estupro e assassinato. Os dados são impressionantes se pensarmos que a metade das mulheres diz que foi seguida nas ruas, metade diz que teve o corpo tocado”, diz a representante da ONU Mulheres, Nadine Gasman.
Desigualdade de gêneros
Para a representante da ONU Mulheres no Brasil, os dados refletem a desigualdade entre homens e mulheres na sociedade. “É uma questão de gênero, de entender que na sociedade, qualquer que seja, as mulheres não são consideradas iguais aos homens. A ideia é que a mulher está subordinada no lar, na casa, no trabalho. Dados [da Organização Mundial da Saúde] apontam que uma a cada três mulheres sofre violência doméstica. Para os homens, os corpos e as vidas das mulheres são uma propriedade, está para ser olhada, tocada, estuprada”, disse.
Segundo Nadine, é necessário implementar políticas públicas que garantam a segurança da mulher em espaços públicos, com políticas públicas específicas, como a iluminação adequada das ruas e transporte público exclusivo para mulheres.
“Quando se pensa que quase todas as mulheres têm a experiência com abusos, não se tem a ideia do assédio. Isso tem um impacto, isso limita de andar na rua com segurança e direitos como educação e trabalho”, diz.
Falta repressão
A professora de direito civil da Universidade de Brasília (UnB), Suzana Borges, avalia que não há repressão adequada ao assédio à mulher em espaços públicos.
“É uma questão social porque, em função de uma posição histórica inferiorizada, a mulher foi objeto de repressão, violência, não só nos espaços públicos, mas privados, dentro da família, em casa, no trabalho”, disse.
Suzana Borges diz que há necessidade das mulheres denunciarem as situações de assédio que vivenciam no cotidiano. “Por se tratar de uma questão de gênero, a denúncia é um mecanismo que reforça a proteção”.
Assédio por regiões
A Região Centro-Oeste é onde as mulheres mais sofreram assédio nas ruas, com 92% de incidência do problema. Em seguida, vêm Norte (88%), Nordeste e Sudeste (86%) e Sul (85%).
No levantamento, as mulheres também foram questionadas sobre em quais situações elas sentiram mais medo de serem assediadas. 70% responderam que ao andar pelas ruas; 69%, ao sair ou chegar em casa depois que escurece e 68% no transporte público.
Na comparação com outros países, 43% das mulheres ouvidas na Inglaterra e 62% na Tailândia disseram que se sentiam mais inseguras nas ruas de suas cidades, enquanto que, na Índia, o espaço de maior insegurança era o transporte público, apontado por 65% das entrevistadas.
Campanha
Os dados são publicados no lançamento do Dia Internacional de Cidades Seguras para as Mulheres, uma iniciativa da organização para chamar a atenção para os problemas de assédio e violência enfrentados pelas mulheres nas cidades de todo o mundo.
“É bastante preocupante que não haja uma perspectiva de gênero nas cidades, um planejamento que não leve isso em conta, como horários, transportes e abordagem de ensino nas escolas. Isso gera e perpetua uma cultura de violência, normatizada e normalizada, de fazer parte do desenvolvimento masculino assediar mulheres e isso não é questionado. A pesquisa mostra a naturalização da violência como uma prática bastante arraigada. Há a necessidade urgente e setorial de se enfrentar isso”, disse a coordenadora da campanha Cidades Seguras para as Mulheres no Brasil, Glauce Arzua.
A campanha Cidades Seguras para as Mulheres foi lançada pela ActionAid no Brasil em 2014. O objetivo é promover uma melhoria da qualidade dos serviços públicos nas cidades para tornar os espaços urbanos mais receptivos a mulheres e meninas.
Glauce aponta a educação como aspecto fundamental para que seja possível reverter o quadro de assédio ao redor do mundo. “A abordagem educacional é uma chave para o enfrentamento. Medidas como acontecem no Brasil, de vagões de trem separados, são paliativas, transitórias. Temos que quebrar essa cultura, que passa por campanhas, treinamento dos gestores, sobretudo criar espaços para que o planejamento das cidades tenha essa perspectiva de gênero”, diz.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
Não tem como não destacar a fala deste juiz. Para ele, uma mulher precisa se opor ao ato de maneira "séria, efetiva, sincera e indicativa". Segundo palavras absurdas dele, não basta "a simples relutância, as negativas tímidas ou a resistência inerte" por parte da vítima. O juiz ainda disse que a violência moral não é "clarividente". A menina tinha 16 anos e foi passar o final de semana com o seu avô que cometeu o ato no quarto do hotel. Vocês me digam: quando vocês viajam com um avô, um pai ou um familiar, vocês automaticamente pensam que isso pode acontecer? A menina, 20 dias depois do ocorrido, foi encontrada com o revólver do padrasto tentando cometer suicídio. Vocês tem noção do dano que isso causa na vida de uma menina de 16 anos? As palavras e a decisão foram, pra dizer o mínimo, absurdas.
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