quinta-feira, 3 de julho de 2014

Força Feminina no Programa Chão e Paz

No mês de junho a Unidade Força Feminina concedeu uma entrevista ao Programa Chão e Paz, da Arquidiocese de Salvador. O Programa vai ao ar no próximo dia 14/07.

Neste Programa é apresentado a história da Unidade Força Feminina,assim como as ações que vem sendo desenvolvidas, os avanços e os desafios que a realidade apresente. Ir. Pilar concede entrevista e fala da presença Oblata na cidade de Salvador e Fernanda Priscila fala das ações da Unidade e do compromisso com as mulheres em situação de prostituição. Também participa da entrevista uma das mulheres atendidas pela Unidade e fala dos desafios enfrentados no cotidiano.


No ano de 2010, quando a Unidade comemorou 10 anos de presença na cidade de Salvador enquanto sede o Programa já feito uma reportagem e neste ano de 2014, ou seja, quatro anos depois retorna para falar da Unidade e das ações. Este retorno demonstra o compromisso e a credibilidade da Pastoral de Comunicação com o trabalho que vem sendo desenvolvido pela Unidade Força Feminina.

Tráfico de Pessoas: O ser humano está à venda?


Adital

Conforme recentes estimativas, cerca de trinta milhões de pessoas no mundo são vítimas de tráfico humano. Trata-se de homens, mulheres, crianças e adolescentes submetidos a trabalho forçado, exploração sexual, adoção ilegal, remoção de órgãos ou outra forma de atividade compulsória (por exemplo, mendicância ou matrimônio forçado). Esses seres humanos são tratados como objetos, reduzidos a mera mercadoria ou instrumentos de produção, encobrindo assim sua subjetividade, seus diretos e sua dignidade de ser humano.
O tráfico humano não é uma peculiaridade da época contemporânea. A história do Brasil e da humanidade nos ensina que sempre houve pessoas traficadas ou escravizadas. No entanto, se no passado a legitimação da escravidão estava relacionada com fatores bélicos (prisioneiros de guerra), étnicos, raciais, sexistas ou econômicos (escravos por dívida), na atualidade, após a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) da ONU ("Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”, "Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas”), como justificar a comercialização de seres humanos?
A difusão do Tráfico de Pessoas no contexto contemporâneo revela, em primeiro lugar, que os princípios da DUDH ficaram no papel e ainda não foram assimilados pelas sociedades contemporâneas. Muito pelo contrário, a recente globalização de cunho neoliberal, apesar das declarações oficiais sobre direitos humanos, sustenta e promove, de forma direta ou indireta, uma generalizada hegemonia do mercado enquanto critério valorativo e avaliativo do ser humano e de sua dignidade. Nesta perspectiva - como insiste reiteradamente ZygmuntBauman (2008) - a pessoa é avaliada a partir de sua capacidade de consumir ou, de forma mais ampla, de se inserir nas dinâmicas do mercado. Isso traz duas importantes consequências: a dignidade não é algo relacionado com o nascimento, conforme a DUDH, mas é algo a ser alcançado ou aprimorado mediante a inserção nas lógicas do mercado; quem não é consumidor ou produtor, torna-se mera mercadoria ou, então, massa sobrante.
Embora qualquer pessoa possa ser vítima de tráfico para fins de exploração sexual, remoção de órgãos ou trabalho escravo, não há dúvida de que na maioria dos casos as vítimas fazem parte dessa assim chamada "massa sobrante” de pessoas. Trata-se de homens e mulheres que buscam desesperadamente garantir a própria sobrevivência biológica e social e que, por engano ou necessidade, acabam envolvidos em redes de tráfico.
Nesse grupo devemos incluir também milhões de seres humanos que trilham os caminhos da migração como fonte de esperança e emancipação. No entanto, as recentes e generalizadas restrições das políticas imigratórias os obrigam, com frequência, a recorrer ao auxílio de atravessadores que, às vezes, não se limitam a facilitar o ingresso nas terras de destino, mas recrutam os migrantes para redes de tráfico de pessoas. Assim, o sonho da migração se transforma em pesadelo.
Resumindo, na sociedade contemporânea, o tráfico de pessoas se configura como ponta de iceberg de uma realidade social em que as relações humanas são viciadas e manipuladas pela lógica do mercado, sendo a dignidade do ser humano quantificada a partir de seu valor de uso e de troca. A comercialização de seres humanos constitui o caso mais grave de um processo de coisificação (ou reificação) inerente à lógica do capitalismo contemporâneo, que tende fisiologicamente a mercantilizar o sujeito, derrubando, assim, a conhecida distinção kantiana entre "o que tem preço” (as coisas) e "o que tem dignidade” (os seres humanos). No fundo, não se pode estranhar, como sugere Michelle Becka, se "numa sociedade onde a reificação é cotidiana, se favoreçam formas extremas de reificação – como o comércio de mulheres” (2011, p. 83).
Assim sendo, o enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, além dos tradicionais eixos da prevenção, repressão e atendimento às vítimas, deve incluir também: a luta contra todo tipo de coisificação/reificação do ser humano, que nada é mais do que o respeito pelos princípios básicos da DUDH. Tal luta deve abranger qualquer âmbito da vida social e não apenas os casos específicos e mais graves de tráfico de pessoas. Em outros termos, há necessidade de uma "cultura” alternativa à lógica reificante e consumista do capitalismo neoliberal.
Em segundo lugar, levando em conta que a maioria das pessoas traficadas é composta por migrantes ou indivíduos que almejam emigrar, o enfrentamento ao tráfico passa por políticas migratórias menos restritivas, que permitam aos emigrantes evitar o recurso a atravessadores. Fica bastante incongruente a política de determinados países que denunciam publicamente o tráfico de pessoas e, ao mesmo tempo, militarizam as próprias fronteiras.
Finalmente, a luta contra o tráfico é, também, senão principalmente, a luta pela justiça social: as situações de vulnerabilidade social das vítimas acabam sempre facilitando a ação dos recrutadores. Qualquer pessoa em situação desesperada tende a tolerar condições de trabalho indignas ou aceitar propostas arriscadas de emprego. O enfrentamento ao tráfico, portanto, deve ser interpretado e planejado no interior de um compromisso mais amplo por uma sociedade mais justa, participativa, solidária e igualitária. Não há outra opção, a não ser a barbárie.
[Por Roberto Marinucci é membro do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios]

Referências Bibliográficas:
BAUMAN, Zygmunt (2008). Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
BECKA, Michelle (2011). Comércio de mulheres e reificação, em: Concilium, n. 341 (2011/3), p. 83.
DIAS, Guilherme Mansur e SPRANDEL, Márcia Anita (2011). Reflexões sobre políticas sobre migrações e tráfico de pessoas no Brasil. In: REMHU, Rev. Interdiscipl. Mobil. Hum., ano XIX, n. 37, jul./dez., p. 59-77.
Roberto Marinucci
Pesquisdor do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios – CSEM

Força Feminina realiza Monitoria em clima de São João



Durante os dias 12 e 13 de junho a Unidade Força Feminina realizou sua monitoria que tem como objetivo ser um espaço de coleta de dados referentes ao Projeto até o presente momento e identificar quando as coisas não estão andando corretamente, assim como se será necessária reconfiguração no Plano de ação.

O espaço foi de extrema importância para a Unidade que fez o levantamento de quais ações vem sendo eficazes e quais devem ser qualificadas para alcançar as metas estabelecidas no início de 2014. Em relação ao Projeto de Abordagem verifica-se um aumento durante os meses de janeiro a abril que foram graduais assim como duas novas áreas de atuação da Unidade, estando entre estas duas à atuação em Feira de Santana que além do assessoramento ao Espaço Viva Mulher que a Unidade já vinha realizando desde o segundo semestre de 2013 agora assume a abordagem social junta a esta realidade. Os gráficos a seguir demonstram o crescente na Abordagem:

Em relação ao Projeto de Acolhida a Unidade termina o semestre com um total geral de 895 atendimentos e um total de 62 mulheres que passam pela Unidade com assiduidade e vem sendo acompanhadas de forma gradativa. O gráfico abaixo representa os dados em relação ao Projeto de Acolhida:

Ainda em relação ao Projeto de Acolhida vale pontuar que a atividade Cantinho da Beleza teve durante o processo um grande resultado sendo um espaço onde as mulheres falam de suas histórias com liberdade, fortalecem a autoestima, crescem no processo de cooperação umas com as outras e no respeito mútuo.
No que tange a especificação Assessoramento e ao Projeto Fortalecimento do protagonismo a Unidade reconheceu que atividades como as Formações precisam ser melhoradas no sentido de fortalecer este espaço, por outro lado os espaços de Rodas de Conversa que tem como objetivo discutir temas referentes a gênero, prostituição e violações dos direitos das mulheres vem crescendo e sendo reconhecido como espaço de partilha das mulheres e fortalecimento de sua cidadania. Outro grupo importante neste projeto é o Grupo Renascer (composto por cinco mulheres da Unidade) e tem como objetivo ser um espaço de protagonismo, articulação e fortalecimento da cidadania. Este espaço conta com a presença das mulheres que se responsabilizam pelo próprio processo, começam se inserir em outros grupos e se articulam no processo de movimentos e lutas sociais.
Estes e outros elementos foram tratados na Monitoria assim como o tema do fortalecimento das parcerias, projeto de Comunicação e Institucional e a partir deste percebe-se a Unidade como referência no que tange ao trabalho junto à mulher em situação de prostituição na cidade de Salvador. O espaço das Cirandas Parceiras (encontro de formação e articulação de Instituições parcerias) foi apontado como elementos novo neste ano de 2014 e como uma ação eficaz no sentido de agregar instituições parceiras e sensibilizar a sociedade sobre a realidade da mulher.

A Unidade termina o momento de monitoria agradecida pelo caminho feito até e confiante na possibilidade de retomar e reconfigurar caminhos que precisam ser reconfigurados. Em clima de São João a Unidade termina o momento no movimento de uma dança que recomeça a partir daqui!!!

Equipe da Unidade Força Feminina participa da Caminhada Coração Azul contra tráfico de pessoas

A Ação ocorreu na manhã deste domingo (08/06/2014) e contou com a presença de Fernanda Priscila, Isadora Muniz, Gladys Amorim, Rosilene Ferreira e Tereza Santana , no Dique do Tororó, em Salvador, promovido pelo  Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Bahia, órgão vinculado à Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH), com o objetivo de incentivar a participação da população no combate ao tráfico de pessoas.

O evento é referente à campanha Coração Azul, que tem como bordão ‘Liberdade não se compra. Dignidade não se vende. Denuncie o tráfico de pessoas’.
Durante o percurso percorrido durante o evento, membros do SJCDH explanaram para população os dados alarmantes referentes ao trafico de pessoas, onde constata que de 2000 a 2013 foram registrados 1.758 casos relacionados a tráfico de pessoas. O caso mais recorrente é o de redução de pessoas a condições análogas às de escravidão, com 1.348 casos.
O uso do coração azul, também demonstra o compromisso da organização no combate a esse crime que atenta contra a dignidade humana.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

CONVITE



Abaixo link para acesso a Ficha de Inscrição, que deverá ser enviada para o e mail:
comunicapff@hotmail.com

terça-feira, 6 de maio de 2014

Regulamentação da prostituição: Pontos entrecortados de uma discussão complexa

Isadora Muniz de Souza, Louraine Carvalho e Fernanda Alves da Silva*
Ao longo de todo o processo histórico da sociedade o tema da prostituição traz visões ambíguas e divergentes, onde ao mesmo tempo em que as mulheres que vivenciam essa realidade sofrem com o preconceito e forte estigmatização, que está em sua maioria justificado pelas normas e moral de um contexto patriarcal, essa mesma sociedade faz “uso” das mesmas chegando muitas vezes a afirmar ser um “mal necessário”. 
A prostituição tem adquirido um caráter de massa e se espalha cada vez mais pelo mundo inteiro. A pornografia é um exemplo de como ela se expande. A globalização neoliberal é um fator dominante na decolagem da prostituição e do tráfico de pessoas. Esta dita globalização tem traços específicos conforme nos aponta Boaventura de Souza Santos, ou seja, a vida é organizada em torno do consumo, e por outro lado, deve se bastar sem normas: ela é orientada pela sedução, por desejos sempre crescentes e quereres voláteis- não mais por regulação normativa.
Na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e ninguém pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpetua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável. A subjetividade do sujeito, e a maior parte daquilo que essa subjetividade possibilita ao sujeito atingir, concentra-se num esforço sem fim para ela própria se tornar, e permanecer, uma mercadoria vendável. A característica mais proeminente da sociedade de consumidores- ainda que cuidadosamente disfarçada e encoberta- é a transformação dos consumidores em mercadorias.¹
A partir dessa premissa, pensar na prostituição, exige um amplo reconhecimento dessa situação aliada a laços complexos que devem partir principalmente da história de vida das mulheres. De acordo com Gey Espinheira “apesar da nítida evidencia das pressões econômicas e sociais na formação da prostituta e, por conseguinte, da prostituição, há os que procuram explicar o fenômeno partindo do pressuposto de que as causas são individuais, endógenas”. Isso implica desconsiderar as histórias de vida das mulheres inseridas nesse contexto, que em ampla escala iniciam sua experiência nessa atividade laboral ainda meninas, onde escolhas (se o termo pode ser usado com crianças), situações limites, contextos sócios familiar, violências e violações não são levadas em consideração, de modo que a discussão sobre a regulamentação da prostituição precisa incluir essas variedades de realidades.
A discussão que tem sido feita no sentido de entender a prostituição como uma opção é antes de tudo uma compreensão que leva em consideração apenas um lado do contexto, principalmente reconhecendo que na sociedade que em que vivemos as opções, todas elas, de certa forma são opções pré escolhidas. Isto não significa dizer um determinismo no sentido de que não há escolhas mas significa não desconsiderar a complexidade da discussão. Segundo os relatos das mulheres atendidas pelo Projeto Força Feminina, a escolha de permanecer, sair ou optar pela prostituição, está condicionada a questões sociais, entre elas a escolarização, que promoveria a inserção das mulheres em outros campos de trabalho. 
Admitir a própria impotência e limitação, como vimos em nossas pesquisas, é um recurso que não está disponível para todos os indivíduos e todas as classes sociais, especialmente porque pressupõe que se visualizem outras possibilidades de ser “gente”, isto é, conceber-se de outra maneira, ser capaz de se autorremodelar. E isso requer tanto condições cognitivas quanto psicossociais que não estão disponíveis para os membros da ralé. (MATOS, pag. 199).²
Vale ressaltar que no Brasil a prostituição não é crime, nem é contravenção penal se prostituir, por isso o termo legalização comumente utilizado não seria o correto, e sim regulamentação. O Projeto de Lei Gabriela Leite, que regulamenta a atividade dos profissionais do sexo, está objetivado entre outras coisas na garantia do acesso aos direitos à saúde, trabalho, segurança pública e dignidade humana, além do combate a exploração sexual pelo controle e fiscalização das casas de prostituição. Ora, não estaria essa lei, reafirmando direitos já garantidos pela Constituição Federal de 1988?  Como a Lei garantirá controle e fiscalização de casas de prostituição, se as mesmas têm sido mantidas em nosso país, mesmo sendo considerado crime, sem nenhuma fiscalização, afinal, só no Centro Histórico de Salvador, relatos crescem de violências e explorações a que as mulheres são submetidas nesses locais inclusive sendo mortas por clientes? A quem caberá essa fiscalização? Em que Lei, essas pessoas estarão amparadas em casos de violência, se nas Delegacias Especializadas de Atendimento a Mulher, por exemplo, essas mulheres não estão amparadas pela Lei Maria da Penha?
Não cabe negar a regulamentação, mas priorizar o entendimento de que esta medida no país onde a função controle é falha favorecerá ainda mais na exploração e lucratividade de quem mantêm essas casas.  Em alguns países onde a prostituição foi regulamentada, uma das visões era retirar as mulheres da rua (trazer para o “privado”, reforçar o processo de invisibilidade social), no entanto o resultado tem sido contrário visto que as mesmas optam por se prostituir nas ruas para escapar do controle e exploração dos novos ”empresários do sexo”. Só nos primeiros três anos a Holanda registrou um aumento de 260% no tráfico de mulheres no país, além do aumento no número de bordéis, assim como cabe a análise das 75% das mulheres em situação de prostituição na Alemanha que são estrangeiras, assim como as dificuldades encontradas pela Austrália desde os anos 80, após a legalização , de combater o tráfico de mulheres.
De modo que o convite acerca desse tema exigirá do nosso país um aprofundamento de variadas questões que perpassam todo o contexto da prostituição, e mais, considerar as milhares de vozes de mulheres que vivenciam essa realidade e estão invisíveis a toda a sociedade e são essas vozes que precisam ser ouvidas, de mulheres da Ladeira da Montanha, da Praça da Sé, da ladeira da Conceição e de tantas outras ladeiras empobrecidas e massacradas de nosso país. 
Referências Bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução de Carlo Alberto Medeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. ¹
MATOS, Patrícia. A ralé brasileira: quem e como vive. Editora UFMG, Jessé Souza e Colaboradores, BH, 2009., capitulo 9: a dor e o estigma da puta pobre.²

*As autoras são Educadoras Sociais do Projeto Força Feminina que integra a Rede Oblata de Pastoral do Instituto das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor. O Projeto situa-se no Centro Histórico, rua:Saldanha da Gama, 19. Pelourinho.